Num dia...

Houve um dia em que como em todos os outros despendi bastante energia para subir as pálpebras e viver por mais algumas horas. Nesse dia, dei uma aula de expressões, à distância, a uma turma de 1º ano, que correu mal. Depois disso e com o meu ego abaixo de -1 e o meu sentido de incompetência acima dos 100%. Sentia-me um calhau com olhos. Ainda nesse dia negro e limpo em que não se avistava qualquer foco de nevoeiro para salvar a pátria. Foi surpreendida com um clarão de respostas. Percebi que gosto tanto de teatro e faz-me tanta falta, porque permitia-me ser coisa nenhuma.
Porque é que dizemos socialmente, por exemplo, que ela é economista e ele é médico. Porque temos de ser uma profissão?
Aquilo que gosto é de ser EU. Posso sê-lo consoante o cenário. Mas sempre EU.
Enquanto recebia e absorvia esta informação, pensava em como isto de ter de ser sociedade e entrar neste jogo irá fazer de mim mais uma hipócrita. E é precisamente nesse olhar que eu torno-me alguma coisa que não gosto. Que é essa pessoa que pensa que por não entrar na sociedade e aplaudir/aceitar as suas regras. Estando sempre contra tudo e todos é menos hipócrita que eles. Quando na verdade é tanto ou mais.
Logo eu que sempre fiz por buscar a verdade. Logo eu que nunca quis ser hipócrita. Dou conta que sou tanto ou mais.
Voar sem AsAs, escrito a 06 de Março 2021, em Lisboa